Episódio #1

Deixem as lagartas comerem!

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Faz um tempinho, o Zé veio com uma ideia: escrever uma newsletter para o site. Nunca tinha feito isso antes, então perguntei:
— Mas sobre o quê, Zé?
E ele, com seu jeitinho mineiro, respondeu:
— Uai, escreve o que vier na cabeça.

Uai, digo eu, Zé… Vem tanta coisa na minha cabeça!
Mas entre uma coisa e outra, fui conseguindo separar alguns temas pra compartilhar aqui. E hoje, começo dizendo: deixem as lagartas comerem!

Desde que comecei a trabalhar com agroecologia e produzir conteúdo sobre esse universo, tem uma pergunta que me chega, sem falha, pelo menos uma vez por mês:
“O que eu faço para combater a lagarta na minha couve?”
Troque “couve” por “maracujá”, por “rúcula”… a pergunta vem sempre. Parece que essas são as plantas favoritas das borboletas.

Basta eu postar uma foto do meu pé de maracujá exuberante que logo alguém pergunta:
“Mas e as lagartas, o que você faz com elas?”
E eu respondo: nada.
Mas quando eu digo “nada”, estou dizendo muito. Carrego um entendimento profundo sobre as relações e os ciclos da natureza — e isso não cabe em um story, em um tweet, ou num post de legenda curta.
Mas aqui, eu tenho mais espaço. E quem sabe, ao final desse texto, você também esteja dizendo:
Deixem as lagartas comerem!

Quando alguém decide iniciar a transição agroecológica ou montar uma horta no quintal, precisa entender que está entrando em um sistema muito maior — um ciclo vivo, pulsante e interdependente. Só é possível compreender a agroecologia quebrando o olhar antropocêntrico que nos ensinou que tudo gira ao nosso redor.

Agroecologia não é só técnica.
É ciência. É filosofia. É cosmovisão. É uma forma de estar no mundo com mais escuta e menos imposição.
É sobre aprender a olhar para o que a natureza está tentando nos dizer.

E, talvez o mais importante: é sobre descentralizar o humano.
A couve não está ali só pra gente. Nem o maracujá. Nem a banana. Nem a água.
Tudo é coletivo. E é no coletivo que se constrói o equilíbrio.

Antes de ser “praga”, qualquer animal, bactéria, vírus — (humano?) — é um ser integrado ao ambiente, com funções específicas.
Ninguém está ali à toa. Todo mundo é alimento, todo mundo é matéria orgânica, todo mundo contribui, todo mundo é controle biológico.
Se o ecossistema está equilibrado, ninguém é praga.

Vamos voltar às lagartas?

Meu pé de maracujá nunca sofreu um ataque de lagartas que pudesse ser considerado uma praga.
Isso quer dizer que nunca apareceram lagartas por lá?
Claro que apareceram. E comeram algumas folhas, sim.

Mas havia dois fatores essenciais ali:
a teoria da trofobiose e o controle biológico.

Explicando um pouco rapidinho,
A teoria da trofobiose diz que a resistência da planta está diretamente ligada à qualidade da sua nutrição.
Insetos e microrganismos que são considerados pragas geralmente têm um sistema digestivo simples, incapaz de processar compostos complexos.
Planta saudável = proteína complexa = defesa natural.
Ou seja: solo saudável → planta saudável → menos pragas. 

Um animal nunca é praga, ele é indicativo de desequilíbrio e saúde nutricional.

E o controle biológico?
A mágica acontece quando o ambiente é biodiverso o suficiente para atrair predadores naturais.
Um exemplo clássico: joaninhas. Elas adoram pulgões — cada uma pode comer até 200 por dia!

Os pulgões, aliás, são indicadores de desequilíbrio, especialmente indicando excesso de nitrogênio e falta de potássio e cálcio.
Mais uma vez: praga é sintoma de solo.

Voltando ao meu maracujá:
O solo estava nutrido, o manejo equilibrado, a biodiversidade presente.
As borboletas botaram ovos, muitas lagartas nasceram…
Mas grande parte delas nem chegou à fase adulta: foram alimento para aranhas, pássaros, e outros predadores naturais.
E as poucas que sobraram, comeram tão pouco das folhas que mal fizeram falta. O maracujá seguiu lindo, saudável, generoso e abundante.

Agora você consegue entender que lutar contra isso é uma batalha perdida? Vale muito mais a pena fazer a nossa parte para contribuir com um sistema saudável do que gastar energia combatendo a vida. E no final de tudo eu ainda tive muitos maracujás, muita couve, muita rúcula e borboletas! 

E um alívio enorme em participar de forma positiva com os ciclos naturais da vida.

Mesmo com o texto chegando ao fim, ainda quero me prolongar! Lembra dos pulgões? E do que eles são indicativos? E dos seus predadores? Ano passado deu pulgão no meu pé de limão rosa e ele estava com os galhos extremamente esticados e coloração verde pálido, indicando excesso de nitrogênio.

 Inseri palha de milho para equilibrar o Nitrogênio com o Carbono, coloquei adubo da composteira para fornecer outros nutrientes, cinza de madeira queimada pensando no Potássio e casca de ovo triturada pensando no Cálcio.

. Esse foi o MEU manejo. 

Agora vamos falar do manejo do controle biológico. Começou com pouco pulgão, em dois dias eles se multiplicaram rapidamente pois encontraram alí uma planta biologicamente menos saudável! (Teoria da trofobiose) Mas o que eles não esperavam era que o controle biológico iria agir rapidamente! Passou mais um dia e apareceram diversas joaninhas no pé de limão e elas começaram a devorar os pulgões.

 Passou mais um dia e o pé de limão estava com diversas aranhas que fizeram teias para capturar os pulgões. Em poucos dias os pulgões estavam todos controlados pelas joaninhas e as aranhas. 

Acabou o pulgão e todo mundo sumiu novamente.

 O limão teve uma boa resposta ao meu manejo e nunca mais sofreu com os pulgões e nem apresentou problemas nutricionais! 

Precisamos profundamente compreender o nosso papel na natureza, observar com cuidado e atenção, aprender com as plantas e os animais, respeitar os ciclos e todas as formas de vida. E assim encerro essa minha primeira contribuição para esse nosso jornalzinho do Muda Floresta! 

Florestas ou nada! E não é floresta só pra nós, tá bom? Deixa as lagartas comerem um tiquin!

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